A noite tornara-se violenta. O vento bradava às costas de nosso herói peregrino e a chuva ameaçava escorraçar aquela terra seca. Um véu branco cobria a cabeça do Andarilho, mas sua visão se guiava através dos montes. Nas ruas o povo trancava as janelas e resguardava os portões, a alameda que levava à Villas já estava vazia, mas os passos d'O Homem ecoavam por ela. Logo a vista das casinhas agrupadas se fez ver e o corregozinho amuava separando os pedregulhos de uma rua firme da lama e terra do pequeno vilarejo.
O Andarilho havia pisado novamente no Riacho Negro, ele cruzaria o limiar da humanidade novamente e não esperava encontrar menos do que olhos aflito fugindo da noite. Exceto pela presença de uma chama, uma chama diferente daquela que ele costumava ver.
A lua deitava-se no leito de um rio. Se o Andarilho continuasse pelo contorno das rochas, era isso que ele veria. Seus pés então tocaram o filete de água, as sandálias de couro se encharcaram. Há tempos a água se esforçaria para tocar as canelas de um Homem, mas dessa vez ele não sentiu o assoalho do rio quando o procurou. Sua perna deixara o apoio das rochas e ele mergulhou até a cintura no rio. Era impressionante. Por trás de um penhasco um milagre ocorria: O simples filete de água se tornava um lago e os barcos encalhados agora balançavam próximo as margens, do outro lado.
A lua era a única a iluminar aquela região. A vila inteira velava num silêncio de expectativa e nem a fome perturbava os sonhos das crianças. Como num impulso inconsciente o homem afundou-se até a cintura no lago, era como se o desenho prateado na superfície do lago o atraísse. E ele se sentiu traindo. Como podia um homem puro trair, os mortais não tinham acesso ao encanto que algo natural podia exercer. Num rompante era como se a necessidade de ter com a Rainha sumisse, e as palavras de um provérbio tocaram seus lábios como um beijo.
“E era bela como sua última irmã, era como a visão do túmulo imaculado, antes de se tocar a chaga, antes de se ter com os olhos da verdade, fria e ríspida de uma mulher”
E eis que ela surgiu. Como a esposa de Arthur, como a mãe dos bretãos. A mulher de pele alva e cabelos negros emergiu de dentro do lago e se encontrou no meio do reflexo límpido da lua. Ela era beijada pela luz da noite e seu corpo dançava com o vento. Ela estava nua, a água tratava-se de vesti-la como o toque de um amante. Quem era a mulher? Não trazia os olhos de Liah, nem a pureza de sua antiga esposa. Mas ela era verdadeira como aquele momento.
A aparição veio desfilando, seu busto era quase revelado pela água, e em seus princípios o Andarilho se fez andar pelo lago que já o cobria até a cintura. Ele não parou até que sentisse a resistência ingênua de se andar sem vacilar. A mulher estendia-se próximo o suficiente, ela era alta o suficiente para ficar à altura, quando a água já alcançava o peito do Andarilho. Eles estavam frente a frente e o vento soprou forte. O barulho parecia capaz de acordar toda a vila e como uma criança nosso homem teve medo, ele vacilara como se as águas fossem o tragar. A mulher apenas sorria, mas a sombra cobria sua face alva, não era possível ver a beleza desnuda, ele era instigado a imaginar o impensável, e uma voz tocou seus ouvidos:
Belo viajante de terras áridas, tive eu que sair do seio nórdico de minha terra para lhe mostrar como fazer? És uma criança tola e com medo de fazer o que lhe foi designado?
E o sopro das águas o fizeram tremer novamente, a mulher lhe olhara como uma sedutora filha de eva. O que ela queria com ele, o que ela queria agitando as ondas contra o filho do Homem? E a chuva caiu, um beijo foi sentido em sua bochecha e o Andarilho perdeu-se de si, ele vacilara novamente e a água revoltou-se como uma força suprema da natureza. Ele sentiu engasgar-se e seus pés não tocavam mais o leito do lago, ele submergiu e sua mão lutou para achar a superfície, o corpo da mulher não estava mais lá e ele afundara. Era a morte? Sua mão rebelou-se novamente e encontrou a superfície, a lua tocou seus olhos e ele sentiu-se puxado para cima. Uma mão fria o ergueu e suas costas chocaram-se contra uma parede de madeira. Era um barco.
Seus olhos encontraram dificuldades em se abrir e ele foi arrastado até ser deitado, era a polpa de um navio. E ele ouvia vozes indistinguíveis, esfregando seus olhos ele permitiu-se um fio de luz, já havia amanhecido? O Sol tocava sua face e no susto seus olhos arregalaram-se de repente. Ele estava num barco e as redes de pesca eram puxadas com violência para fora da água. Aquele povo teria comida, os negros no barco gritavam e seus sorrisos brancos revelaram a alegria de quem tinha suas preces atendidas.
Após treze anos de abandono alguém tinha feito algo por eles, e não havia sido Ele. Os olhos do Andarilho se encheram de lágrimas e um senhor sem os dentes da frente se aproximou animosamente, estendendo-lhe as mãos. Mas o gesto não foi retribuído, o Andarilho vacilara, pela terceira vez, e os sinos de Villas tocaram anunciando a fartura propiciada por seu Deus.
sábado, 31 de outubro de 2009
de: A revolta de uma Deusa
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