terça-feira, 18 de agosto de 2009

O Capítulo dois...



Poucos acreditariam na verdade a qual eu contarei, decerto, somente quem esteve lá e viu o que eu vi poderia ser chamado de são. O andarilho me contou muitas coisas para que eu pudesse... Eu pudesse relatar a vocês e a sociedade de Ether e Teha’onicelles quando chegasse a hora e meus éditos não fossem mais confiscados. Entretanto ele havia curado um atormentado, havia violado uma tumba e seu irmão de viagem saqueou as catacumbas. Não acho justo que seus diálogos lamuriantes venham para o túmulo deste velho escriba, não mais a serviço do Rei.

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terça-feira, 4 de agosto de 2009

Do olhar frio e congelante



Canthalion esperou sete dias pelo pagão, na cidade de Ether. Mal sabia ele que o andarilho havia outros caminhos a percorrer e outras pessoas para ver. Após deixar a casa do enfermo nosso homem seguiu planejando atravessar o riacho negro, tal como uma navalha, aquele filete de água distinguia os homens livres de ex-escravos e uma vila se formava contra o paredão de rochas na divisa de Etheratibag. A visão daquilo era constrangedora, mesmo para um homem de guerra, e uns poucos abutres pareciam partilhar da mesma opinião crua ao se recusarem a voar por ali, se mantendo apenas no alto do penhasco como se chorassem da miséria humana.

Uma criança parda com o dorso de fora correu por ali perseguindo uma bola de meia e uma senhora negra cantava em Egípcio... Não havia guardas ali e ela não seria repreendida, mas ao ver o Andarilho ela se apressou em entrar e fechar a porta do casebre de madeira que tremeu como se fosse cair. O Andarilho entrou na vila e percebeu que muitas bananeiras lutavam contra o chão seco e davam frutos por ali, e algumas crianças insistiam em brincar ao redor do que parecia ser o centro do vilarejo. Levantando poeira com seus pés descalços todos pareciam rumar para um mesmo ponto do lugar, e pela primeira vez o Andarilho levantou a cabeça e viu algo que destoava totalmente de qualquer miséria ou pensamento desolador... Uma linda mulher, de cabelos castanhos e curtos, presos num coque e firmes com ajuda de uma tiara. Ela vestia um vestido longo de seda celeste, mas os pés eram descalços e as mãos e pescoços sem adornos, aliás, suas mãos firmes trabalhavam duramente colocando sacos de mantimentos no chão.
O Andarilho, displicente, andou em direção a ela e estendeu as mãos como se fosse ajudá-la a descarregar a enorme carroça com a marca real, que só agora ele vira. A mulher franzia as sobrancelhas e apesar de um sorriso surgir em sua face ela disse duramente:
- Não preciso de condolências, não mais que essa gente, eu acredito!
E o Andarilho olhou a sua volta e viu que todos os habitantes da vila o encaravam com os olhos caídos e a face amedrontada, até mesmo o maior dos homens havia recuado e um bebe começou a chorar ao fundo. A mulher encarou profundamente ao Andarilho e ele se envergonhou de ter se escondido por tanto tempo:
- Vá homem, não se preocupe em ajudar agora. Você parece ter que fazer muitas coisas antes disso! Se ocupe de si mesmo agora.
E o Andarilho apenas virou e pisou sobre a pouca água que passava pelo riacho, com os pés molhados ele contornou de volta para o ladrilho da cidadela e pensou em Canthalion, pensou em sua irmã e nas catacumbas onde a Rainha de Tsé estava enterrada agora, seu amigo já havia estado tempo demais com os nobres e era perigoso para ele ser seduzido pelo ouro!




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domingo, 2 de agosto de 2009

Do Capítulo de Cura

Enquanto Canthalion, o antigo Príncipe, errava ao subornar ao guarda o Pagão ia ter com mais importantes. Estava ele na Rua da Sovada, ou soleira, quando avistou a casa de um homem. O bom senhor se chamava Kéofas e segundo os vizinhos queimava em febres e delírios. Decerto havia dias que estava de cama.
O Pagão entrou na fila que encaminha os visitantes para orar pelo enfermo segundo a tradição. Ninguém se identificava apenas se ajoelhava no assoalho, ao pé do leito, e murmurava enquanto manuseavam as contas. Quando chegou a vez de nosso amigo, ele não se ajoelhou, não disse bênçãos aos anfitriões, Apenas repousou a mão nas faces da pedra:
- Senhor, Senhor!- Urrou Kéofas como se estivesse numa tempestade. - O senhor vai se afogar!
Ele repetia isso na língua primitiva “- Jeová, Jeová! -“
-Não tenhas medo!- Exclamou o pagão. – Venha ao meu encontro.
Ao ouvir isso Kéofas, esbugalhou os olhos, como se despertasse de um transe. Tossindo e levando as mãos para o alto ele se engasgava com a água que saia de sua boca, como se fosse um náufrago.
Os homens da casa, irmãos de Kéofas, eram onze e apenas disseram.
- Mas os médicos nos disseram que ele estava desidratado, não bebia água há dias. Como pode agora se engasgar como se saísse do mar.
E o Pagão nada disse e se retirou da morada.

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