O homem que conduzira Canthalion era chamado de Mestre de Cerimônias e estava agora conversando com um dos guardas que ali estavam. O baixinho de costeletas compridas era engraçado no seu modo de agir, balançava os braços agitada e, às vezes, até freneticamente, enquanto o guarda ouvia suas lorotas envaidecidas. Debaixo da sacada onde os três estavam se via um lago comprido cercado por um pátio, uma redoma, de mármore puro e amarelado. Lá escribas gordos e papudos escreviam, estavam descamisados e esparramados pelo chão em poses esdrúxulas e não muito confortáveis. No lago vários guardas se refrescavam e além das “escravas” sírias não se via outras mulheres.
Canthalion passava os dedos pelo parapeito da sacada de um lado para outro, e de vez em quando levantava os olhos para além do horizonte, ficou assim no mínimo três quartos de horas e quando os guardas se preparavam para fechar o portão de acesso à cidade, apesar de haver, ainda, muitos homens e carroças tentando atravessar a ponte, ele foi surpreendido por um dos guardas:
- Alto jovem senhor!- Gritou o guarda.
- Boas, meu caro companheiro. – disse ele em tom jovial e prosseguiu. – Estou acompanhado e espero as honras de... - Mas foi interrompido pelo mesmo guarda.
- Sua sala está pronta, tudo está no nome de Canthalion de Vilas, aqui está sua permissão de estadia. O senhor pode seguir para o segundo piso!
Quando Canthalion se virava para a escadaria no centro do prédio o guarda o interrompeu:
- Espere! Onde está o pagamento?
- Acho que estava devidamente entregue junto com o pedido de morada, ou estou enganado? – Disse Canthalion escondendo o sorriso amarelo.
- Este já foi pago. Falo pelo de transporte. - Explicou o guarda. – Há uma carroça que o espera, disse que chegou com a última leva e está com uma encomenda para o senhor, deve ser pago então o tributo de cargas.
- Ah, sim. Eu compreendo, não há mal algum, me leve até o carroceiro. – E enquanto entregava um embrulho ao guarda disse:- Acho que isto deve bastar.
Entre os panos do embrulho havia uma taça de prata que Canthalion violara das catacumbas.
quinta-feira, 30 de julho de 2009
De como um Príncipe antigo volta a um Palácio
terça-feira, 28 de julho de 2009
De um passado já distante!
“Era tempo das colheitas e uma criança brincava as margens do antigo rio Jordão. As tropas de recolhimento passariam a qualquer momento e os camponeses juntavam suas possessões, ninguém ali gostaria de esperar a chegada dos cavaleiros do Rei para se retirar do campo. Touthot era o nome do guardião daquele povo e ele gritava para os quatro cantos dizendo que os espoliadores já estavam no horizonte. A mãe do menino puxou-o pelo braço, mas suas mãos suadas escorregaram por aquele corpinho miúdo.
- Dante! Já é tempo!- Gritou ela, apesar de estar a um braço do menino.
Os escotilhos passaram de camelo pelo rio e atravessaram para a outra margem...
- Kaçış, Kaçış!!!
Mas em poucos segundos os cavaleiros do rei surgiram, alcançaram os saqueadores e extirparam os magros camelos e seus escotilhos, na frente de um pobre menino branco do sul. A mãe não viu a cena excruciante, correra com os gritos de aviso e estava a cem passos do rio e não olhava para trás. Perder um filho já era comum para os Sírios. Nos dez anos antecessores eles perderam cinqüenta e cinco mil cabeças.
- Çalıştır'ı barış çocuk için!- Gritou uma voz irreconhecível para o menino, mas temida pelos carrascos, naquele momento os cavaleiros que ainda tinham sangue nas mãos, fugiram com a mesma velocidade.
O menino não entendeu a língua do seu salvador, ele não havia freqüentado os Sabedores e não reconhecia a língua geral. “Drushka, Drushka...” Ele sussurrava silabicamente. Mas o filho do rei, o Príncipe da capital, não o escutou. Desceu de seu cavalo e banhou-se até os joelhos na pouca água do Jordão. “O menino ficou sozinho, mas nunca esqueceu aquele homem de cabelos longos e desgrenhados.”
Se aquele menino visse agora o homem que saia da encruzilhada de catacumbas e se esgueirava na rua do comércio de Etheratibag ele não o reconheceria. De cabelos rentes e resmungando como um velho babilônico, Canthalion rumou para o centro sem a maca que carregava antes. Ele subiu as escadarias para o segundo andar da cidade rumo ao sabedouro dos escribas e teria sido parado pelos guardas da escadaria se um homem atrás deles não assobiasse em sua direção.
O homem era baixo e tinha cabelos volumosos e costeletas consideráveis até a entrada do queixo. Ele não falou seu nome e tinha gestos comedidos, guiou o antigo Homem pelo braço e girou a maçaneta de uma grande construção no final do grande corredor que cortava a baixa cidade. Com grandes módulos reluzentes e janelas grandes em suas laterais, a obra faraônica era vermelho sangue e avistava toda a entrada da ponte para Etheratibag, mas as catacumbas eram obtusas demais para serem denunciadas. Quatrocentos cavaleiros do Rei residiam naquela morada e rezavam, ou fingiam, pela paz e consciência.
Da janela da face norte da morada se via toda a grande movimentação da cidade, na rua do comércio, na qual Canthalion havia se esgueirado, no entanto, não dava para se distinguir ninguém. Suas marquises eram compridas e apesar dos diversos decretos e marteladas que elas sofriam continuavam a esconder os pagãos, Sírios e exilados. Havia uma verdadeira ordem de proteção às minorias em Ether.
Entretanto Ellijah, o regente da cidade nada fazia para evitar a disseminação da liberdade em sua cidadela. No início poucos achavam que era sinal de sua benevolência, agora ainda menos gente acredita nessa caridade. Na verdade, é justo dizer, Ellijah era um verdadeiro corrupto e explorava e dizimava constantemente os refugiados, suas ânsias sexuais eram satisfeitas com as filhas dos constantes prisioneiros que fazia o que diminuía ainda mais as esperanças dos Sírios em criar raízes na cidade. Como nem o conselho de Fazeerd e nem a população de gente livre sabia desses abusos ele era considerado o mais liberal e benevolente dos regentes.
O conselho envia diariamente decretos e cavaleiros seus para influir na política de Ellijah, mas apenas uma pessoa tinha esse poder, e ela se chama Gia.
segunda-feira, 27 de julho de 2009
De Etheratibag!
O caminho para Etheratibag era longo, mas dezenas de caravanas de camelos cruzavam a ponte todos os dias da quinta à oitava hora de Sol. Ermahnur Ellijah havia expedido ordens de recolher para evitar entrada de pagãos na cidade, não era por acaso que o primeiro a olhar em direção as fronteiras da cidade de Etheratibag avistaria o grande Mármore do templo de Alah.
O grande problema de Ellijah e dos olhos centrais de Abul eram as catacumbas malditas. Dezenas de ex-escravos, e os moribundos que sobreviviam à travessia do deserto Sírio para fugir do exílio, passavam por aqueles encanamentos que antes guardavam relíquias dos deuses pagãos e que foram queimados e saqueados pela guarda hostil. Era nesse cenário de angústia e destruição que estavam um homem alto e com a cabeça recentemente raspada, era visível, e seu companheiro igualmente alto que carregava apenas uma bolsa de pele de cordeiro, sua cabeça também não ostentava sinais da considerável cabeleira que ele tivera.
Nas costas de Canthalion, estava uma esteira amarrada e sustentada por troncos finos nas laterais que escondiam algo, comprido e maleável:
- Tínhamos mesmo que raspar nossas cabeças, isto é tão hipócrita!
- Você quer entrar mesmo na cidade com vestes e face de pagão Canthalion, meu caro!
- Já estou carregando algo mais denunciável que nossos atos e aparência juntos! Não quero ninguém da guarda hostil me parando e me revistando!
- Aguarde aqui!- Pediu o pagão.
- Aonde vais? Tu não podes sair por aí sem mim...
- Não se esquece meu caro príncipe já estive em Teha’onicelles, aqui em Ether não será diferente!
Quando o pagão se virou numa curva da catacumba Canthalion se viu sozinho e longe de casa. A verdade é que há muito ele não tinha uma casa, mas como isso lhe faltava... Junto das paredes havia um homem negro e muito machucado já, era triste, mas sabido que se ele saísse das catacumbas em busca de Cura ele seria chicoteado até que suas últimas forças se esvaíssem.
Era triste, era doloroso... Estar nas cidades dos sem nomes!
domingo, 26 de julho de 2009
O Andarilho de Jerusalém...
Era ainda parte dos tempos secos. Não chovia havia uma centena de dias e Abul Fazeerd ainda estava nas cidades e habitava no templo. Muitos tinham medo dele, e atravessavam as ruas com medo de sua autoridade, outros o maldiziam, mas estes eram outros mesmo...
Nosso outro homem havia chegado às cidades há três dias e ninguém sabia de seu passado, trabalhava como ferreiro, e não ia aos templos, por isso o chamavam de pagão. Muitos que chegavam de Teha’onicelles diziam tê-lo visto lá, mas ele não falava... Pagão também tinha dívidas com uma moça: Eleanor, que era de Jerusalém, ela o acolheu junto de seus outros irmãos e dava o pão para eles.
Os cinco homens moravam em Vila, e muitos os blasfemavam chamando-os de Egípcios, mas o pagão ficava alheio a tudo. Os quatro irmãos de Eleanor eram criminosos confessos e já cumpriram cárcere em Leão, Pagão, no entanto era muito agradecido a eles e continuava sem falar...
O único que havia ouvido sua voz era um homem pardo de tez branca, cabeludo, com barba cheia e longos cabelos, ele morava perto da estrada frente ao antigo mosteiro na região das cidades. Todos o estranhavam, mas como ele ajudava a todos, principalmente com os carregamentos, poucos o blasfemavam, por causa de seus cabelos longos. Todos os homens que ocuparam o velho mosteiro haviam raspado a cabeça com navalha e vestiam-se de marrom e odiavam os egípcios e os gregos...
Pagão, num fim de quinzena de dias, pegou sua trouxa e como de costume partiu em direção ao centro das cidades. A viagem não durava muito, mesmo a pé, porém um altivo senhor o único com cabelos longos o esperava com a carroça na saída da Vila, este senhor tinha como nome Canthalion.
Pagão subira junto à cevada que era transportada na parte traseira da choça, e não cumprimentara o guia... Eles seguiram rumo ao velho mosteiro, mas não pararam lá, atravessaram a ponte de Leão, mas como os guardas vigiavam a zona do exílio, cortaram então até os montes de Enthel. De lá viram os descamisados trabalhando no Exílio, a túnica cor vinho do pagão estava suada, e água este não o portava, mas pagão deu graças por não estar lá embaixo, nos vales.
Eles pararam então perto de Rocas onde havia um manancial que parecia virgem e intocado. O lugar devia ficar a um terço de léguas da cidade de Rocas, onde habitavam quarenta mil homens, mesmo assim o leito era puro. Os dois homens se abraçaram e beberam da água, Canthalion, então se levantou e com um cajado se aproximou da face cinza da montanha, arrastou uma pedra tumular até então disfarçada pela selva, e revelou uma câmara. De dentro um cheiro de oliva vinha seduzindo a todos os dois, Pagão chorava com as mãos a cobrir a sua face esquelética.
Canthalion sumiu dentro da câmara e voltou de lá carregando um corpo, envolto num tecido alvo e branco, parecia imaculado... Era uma mulher jovem, trinta anos, face branca como a cera, e o cabelo negro desnudo em todo o seu comprimento, ela parecia serena. Canthalion que a carregava firmemente nos braços, em contraponto a Pagão, sorria, mesmo que uma lágrima insistisse em lhe cair, ele percorrera tanto, para chegar ali.
Por Tanto tempo Canthalion esperara que não lembrava mais daquela sensação de aconchego que percorrera sua pele naquele instante. A moça em seus braços era ninguém senão a Rainha de Tsé. O Pagão alheio a tudo lavou os pés e as mãos e beijou aquele rosto frio:
- Não podemos contar a tua irmã!
- Eu sei.- Vociferou o de longos cabelos...- Ela não entenderia.
- Na verdade ela sabe que vamos morrer, ela nem acredita na volta dos Mendjhad!
- Por isso vamos fugir!
- Não pode esperar o solstício. - Clamou o pagão.
- Não será hora! Há uma dúzia de anos eu era príncipe. E agora?
- És um pagão, mas um pagão de fé!
sábado, 18 de julho de 2009
A Nova Terra
“As cidades foram fundadas por Abul Fazeerd como modo de centralizar o poder político na região. O controle das áreas mais populosas da costa leste do mediterrâneo foi dado a Abul depois da divisão Judaica e a nova égira. Abul tomou por controle desde o norte com a grande polis de Teha´onicelles, o nordeste com os vales até Leão e o monte Enthel, a região do centro onde fica a Citadela de Tel’Aviv, o leste com Vilas e até a extensão de Jahlalabad, o sul lhe é dividido com o Imperador Sírio onde ficam os maiores campos de exílio, e o oeste é controlado da cidade Adriática por Edron, o único que aceitou o cargo.
Não chove, não venta, os barcos quando não mareiam, encalham. A censura é imposta, os ídolos de ouro e bronze foram queimados e os de prata e cera quebrados, Baderna e cerveja são proibidos. Aqueles que são naturais das cidades podem viajar tranqüilamente entre elas, mas não poderão deixá-la sem permissão, e os imigrantes devem se apresentar ao Rei e abandonar sua religião. A língua oficial é o aramaico e qualquer manifestação em egípcio, grego, ou islã é proibido. Não se pode falar ou agitar multidões sem a autorização dos mestres-de-lei. É inútil desobedecer, as covas estão abertas, e as cordas apertadas. ”
Ermahnur Ellijah, Mestre-de-lei.
