Tsé ficara responsável em subir para o Castelo do Rei Gideão e com ela foram 7 soldados da Capadócia, acompanhados de 13 soldados Assírios. Um alto Touro alado podia ser visto no centro da cidade, onde ficaria o mercado, mas o peregrino de Tsé não poderia ir até lá. Foi posto, antes, aos cuidados de uma mulher idosa que o levaria de camelo até uma aldeia fundada pelo próprio Assur. A travessia não era longa e ao anoitecer do mesmo dia ele estava sendo recebido na porta de uma casa simples, mas bem adornada, e com um campo enorme entre o planalto do vale do Rio Tigre.
A cabana era de madeira firme, pintada de branco por mãos fortes e bem acabada, demonstrando o zelo de uma família da região. Era bem sabido que o Rei Assur havia deixado bons ensinamentos e uma boa escola para os Guerreiros de Gideão que conseguiam se distanciar eficazmente do Regente de Etheratibag. Logo a mulher encarregada havia de partir com o camelo, mas antes fora recebida pela Matriarca de nome Laura. Era vinda do mediterrâneo, mas cultivava os bons costumes e assumia um bom papel cuidando de um lar Árabe, era notável que ela estava grávida e por isso a felicidade do lar era completa.
Não havia ainda crianças por lá, mas os adornos de seda deixavam claro a esperança de que o primeiro filho nascesse logo. Laura fora simpática e sorria sempre para a visitante e para o jovem que devia abrigar. Seria, sim, uma mãe jovem, de feições generosas e cabelos loiros. Era farta em peso e em coração também, e isso era evidente em seus olhos claros. Logo que a encarregada do jovem saiu chegou o patriarca, feliz e agraciado com a vitória do dia. Seu nome? Significava o maior de todos os atributos dos filhos de Gideão: O guerreiro, Seth.
Marido e mulher se beijaram apaixonadamente, ainda que não houvesse beleza na cena. O homem possuía a face redonda e inchada e Laura já era atingida pela peso da gravidez. Algo maior iluminava aquele momento, e disso o Peregrino ainda não entendia. Ele fora recolhido como um filho pelo homem que lhe levou para montar em seu cavalo raçudo e mostrou-lhe sua cimitarra e sua armadura real. Fora o mais próximo que ele chegara de um amor tão jovem e tão repleto de luz, era como ver dois leões caçando e ver a beleza disso.
segunda-feira, 30 de novembro de 2009
Um retrato inalcançável ao Jovem Peregrino.
sábado, 21 de novembro de 2009
A primeira viagem do Andarilho
Nas vésperas de completar a sua maioridade o menino franzino e de aspecto adoentado, conhecido apenas como peregrino e irmão de Tsé, meteu-se em uma jornada rumo ao monte de Gideão. Era da vontade de seus pais que ele fizesse isso, então o jovem acomodou-se ao lado da irmã numa caravana que partia no início da primavera. Alguns camelos se ajuntaram a eles, também foram doze adoradores, mulheres com crianças e carneiros, homens de bem e ex escravos fugidos de Roma. Eles peregrinariam por muito tempo, sob o Sol do Médio Oriente e seriam conduzidos por uma mulher de fibra.
Mas era certo, aos olhos de seu irmão, que Tsé jã não era a mesma jovem de antes. Seu aspecto motivador e suas palavras não continham a mesma força de antes e o pequeno homem, que já passava em altura à irmã e à maioria dos homens da caravana se sentia pressionado por isso. Escondido de todos então ele tinha levado quinze folhas de pergaminho lhe concedidas por um soldado de Roma que havia sido ferido em batalha e largado perto da fronteira norte do Lebanon. O pergaminho velho e rasgado continha os dizeres iniciais. “Cartas e preces de Salomão por sabedoria.”
O menino irrequieto em saber, aproveitava as noites escorraçadas pelo vento do deserto e lia as orações sob a tenda de sua irmã, que dormia. Nas manhãs ele se sentava ao lado dela e ouvia suas, já poucas, palavras de esperança. A comida era simples, mas as mulheres tratavam de preparar as provisões e guarnecer as jarras de água, para que elas não acabassem. Os homens mantinham-se de guarda, ao lado dos carneiros e das carrocerias. E Tsé tinha como única responsabilidade pregar, e as palavras dela iam tocando ao irmão, o jovem já era mais atento ao que via e começava a reconhecer o trabalho dos sábios. Só não entendia o porque de ter que esperar o silêncio das noites para ler o testemunho de um Rei tão sábio. Porque só cabia à Roma guardar aqueles ensinamentos?
E as palavras de Tsé e Salomão se cruzaram por diversas vezes: “Tal qual nosso inimigo, assim devemos ser nós. Não nos difere a raça, a crença ou os costumes. Respiramos do mesmo ar, comemos dos mesmos ingredientes que são nos dado pela natureza e por um Deus justo. Shalon pela paz dizem os nossos irmãos da costa Mediterrânea e assim eu vos digo, Paz, paz aos homens que tem feito o bem!”
O jovem peregrino aplaudia e assim faziam todos que se sentavam ao redor de Tsé. Estavam indo ao monte Gideão, todos os filhos da mesma linhagem, estavam em busca de paz. Desde o Norte até o Sul do Egito e toda a Terra. Eles caminharam por cinco ciclos da Lua, já era a oitava noite sem lua que eles enfrentavam. E nessa ocasião eles chegaram às margens de um rio, era o rio de Tigre, próximo à Assíria dos Judeus. Onde vivia os bravos homens de Gideão.
domingo, 15 de novembro de 2009
De um passado escrito há muito!
O seguinte manuscrito foi encontrado na região da Capadócia, perto dos montes onde se acreditava viver o Andarilho e sua irmã Tsé, eles eram filhos de uma linhagem pagã, era certo, não professavam A Religião Romana e não pagavam os impostos do governo do Médio Oriente. Tais palavras passaram nas mãos do Mestre de Cerimônias, antes que ele assumisse sua posição de poder. O manuscrito, então, tinha sido reproduzido após chegar às mãos de uma enfermeira residente do litoral do Mar Negro. Ela escrevia cartas e se correspondia com alguns patriarcas do Povo de Tsé, entre eles um jovem que se identificava apenas como Peregrino Sem Nome, isso era devido a repressão do Governo Central e isso deu a eles a chance de uma amizade, ou quem sabe, a esperança de serem livres com seus povos.
“Eu cresci perto de homens com muito a ensinar e de gente sem vontade para escutar. Eu ainda me pego, à noite, imaginando o que farei daqui há alguns anos. Eu terei que partir e deixarei mamãe e papai para trás, eu tenho tanto a ensinar, a fazer pelas crianças daqui e eu estou preso a uma condição de silêncio. Isso me dói, amiga. Foi preciso que uma menina, recém debutante me viesse dizer: 'Saia da ilusão irmão querido, você nos ilumina com suas histórias, com suas palavras. Todos em Tsé gostam de ouvir-te falar, você é como um semeador de sonhos, não pare com seus cânticos fantasiosos. Mas lá fora, não há tempo para mentiras imaginadas, elas não te darão a comida de cada dia. Sê grande homem e lute com suas armas, palavras são como as piores flechas envenenadas, elas grudam e ferem por semanas... Irmão querido!'
Depois disso eu voltei a te escrever, realmente o meu sonho está longe daqui, eu nem posso enxergá-lo com meus olhos oblíquos. Papai ainda me chamava de “ave de grande alcance” podia alcançar até os mais velhos com minha imaginação. Eu ainda rezo pra ser assim, pra não ter me perdido, rezo para a pena e o papel estarem ao meu lado quando eu acordar, antes que eu tenha que partir.
Um fardo muito grande se aproxima de Tsé. Minha irmã viaja semana sim, semana não e volta com uma expressão cada vez mais derrotada, seu sorriso branco não é suficiente para manter nossa fé. E eu temo que daqui há alguns anos essa responsabilidade recaia sobre mim.
Enfermeira, ainda iremos nos encontrar, eu queria curar os homens com as mãos, como você faz. Mas eu tenho tido sonhos, e é só palavras que saem de minha boca, papai ainda diz 'são palavras que curam Aharyn, meu filho. Palavras de poder, reze agora. Reze.' E eu rezo, todas as noites, rezo para me tirarem daqui, me levarem para o Monastério, me levarem para Nova Alexandria. Mas eu sou pobre e minhas palavras ainda não me fazem voar. Eu ainda queria voar, enfermeira, queria voar, queria ir para o lugar dos sábios, quero me casar e ter meus filhos numa esteira adornada com ouros, quero ir as feiras de Jalalabad com eles. Dai-me licença, agora eu vou rezar com Baba.”
quarta-feira, 11 de novembro de 2009
Um tempo para se pensar II
A manhã surgia fazendo o Sol se debruçar como uma criança no horizonte. Nosso Homem ainda manteve-se em Villas em virtude dos últimos acontecimentos, era como o tempo para refletir. Ele ainda não entendia como alguém, há anos, pode pedir sabedoria ao seu Deus, quando se podia ter qualquer outra coisa. Entretanto, claro como a água, a necessidade de entender se fez presente. Era tempo de refletir, diversos sinais lhe eram lançados pela Terra e pela água. O Pai não poderia esperar.
Eis então que Canthalion pisou em solo impuro, em busca do amigo. O forte homem de Gideão abandonara o palácio em companhia do Mestre de Cerimônias e tomou o caminho de areia até a presença de seu amigo peregrino. Foi ter com ele na margem do rio, que agora jazia cheio, em seu leito irregular. O sorriso de Canthalion não podia ser medido e este se curvou perante a presença do amigo:
- Ora, ora! És agora o Andarilho de Villas, abandonastes a Rainha e tornara-se amigo dos egípcios?
- Fale baixo homem sem fé! Você assusta ao povo desse lugar com suas vestes reais. E seu amigo Mestre, precisava vir fardado? Eu preciso de tempo antes que o verdadeiro tempo chegue. Eu ainda não sou digno de conhecer a mulher do Regente.
- E isso tudo é... Medo?
Dessa vez Canthalion sussurrara ao amigo. Alguns aldeões se agrupavam, já preocupados com a presença de Cidadãos em sua vila. O Andarilho pousou as mãos sobre o ombro largo do amigo e arrastou para uma caminhada pelo leito. O Mestre de Cerimônias viria a narrar depois que ambos sumiram de vista, indo até próximo do base do penhasco, mas antes disso eles foram interpelados por uma mulher vestida com a cor dos céus:
- Homens de fé! Vieram na intenção de ajudar aos pescadores, ou finalmente porão à tirar-lhes da pesca infrutífera?
Aquelas palavras foram dignas de espanto para Canthalion, mas o Andarilho apenas sorriu, envergonhado. A mulher já trabalhava em Villas a mais tempo que o peregrino havia pousado o pé naquele solo e, em verdade, ela lhe parecia digna de sua compleição santa. O riso bobo tomou a face do nosso Homem e nesse momento seu amigo do Norte o puxou para fazê-lo voltar a andar. As palavras de irritação de Canthalion não foram ouvidas, o Andarilho se preocupava com coisas maiores agora do que a interpretação humana de seu amigo:
- É um absurdo homem! Agora esses egípcios vão nos acusar de roubo? E eu lá quero esses peixes, tenho um aposento no castelo se ela quer saber, tenho feito quatro refeições ao dia, tirando o desjejum! - O Robusto homem continuava a bradar, coçando a careca mal aparada.
Os amigos, tão distintos por suas experiências continuaram a contornar o lago até obterem uma vista em profundida de Etheratibag, com Villas ao sul. Os olhos do Andarilho se encheram de lágrimas o que fez seu amigo parar de resmungar. A vista do amanhecer era bela como o nascer da vida, era como o abraço da Sara em seu povo, era como o erguer de cajado do Pai, chamando os filhos para a casa.
Uma nova decisão se abria aos olhos do peregrino sem nome, ele começava a enxergar os mistérios a sua volta. Como uma mulher poderia constranger a tantos homens, homens que guardavam as forças mais diversas possíveis. Ele então imaginou uma mulher vestida de Céu, com o Sol sobre sua cabeça, ela conversava com os 12 homens mais inteligentes do Templo, e eles se admiravam com ela. Sim, era preciso, era necessário reconhecer! “Pai, dê-me a sabedoria necessária”
E o Andarilho rezou.
terça-feira, 3 de novembro de 2009
Um tempo para se pensar.
O Andarilho se lembrara de sua estada com a Rainha, e seu povo em Tsé. Ele adormecera junto ao povo de Villas, havia visto o sofrimento verdadeiro de quem se submetia a um Rei frio e ambicioso e isso só o impelia a descobrir a bela face de Liah, a esposa de Ellijah, a mulher mais poderosa de todo o Oriente Médio.
O Andarilho conversara, há muito, com um pastor, enquanto ainda estava no Exílio. E ele lhe dissera que havia visto Liah por três vezes e que ela conversava com as cobras e navegava sozinha pelo Mar Vermelho no outono, entretanto a mesma voz que o informava também alertava: “Fique esperto com essa mulher, é como o vento soprando em seus cabelos numa tarde quente. Você nunca saberá quem esta com a razão, se é o suor em seu pescoço ou o refresco em seu ouvido!”
O tempo que se passou fez muitas mudanças com o nosso homem, mas ele recolhera tudo que pudera a respeito dessa mulher, que quase nunca era vista em público. Só se sabia que um simples assovio dela fazia Ellijah voltar a trás em suas palavras. Como ela detinha tanto poder?
O sono vinha e desvinha para o Andarilho e ele dormia numa cama de madeira frágil, com cobertas grossas e gastas. Mas sua cabeça o guiava para além dos muros de Ether. Ele era levado a crer que o momento estava próximo, que a esperança de seu povo não morreria e suas obras começariam a ser reconhecidas. O pesadelo de ontem fora esquecido, assim como o modo de se contar os dias na cabeça dele. Era a hora de acordar e mover suas mãos pela verdade e a justiça.
sábado, 31 de outubro de 2009
de: A revolta de uma Deusa
A noite tornara-se violenta. O vento bradava às costas de nosso herói peregrino e a chuva ameaçava escorraçar aquela terra seca. Um véu branco cobria a cabeça do Andarilho, mas sua visão se guiava através dos montes. Nas ruas o povo trancava as janelas e resguardava os portões, a alameda que levava à Villas já estava vazia, mas os passos d'O Homem ecoavam por ela. Logo a vista das casinhas agrupadas se fez ver e o corregozinho amuava separando os pedregulhos de uma rua firme da lama e terra do pequeno vilarejo.
O Andarilho havia pisado novamente no Riacho Negro, ele cruzaria o limiar da humanidade novamente e não esperava encontrar menos do que olhos aflito fugindo da noite. Exceto pela presença de uma chama, uma chama diferente daquela que ele costumava ver.
A lua deitava-se no leito de um rio. Se o Andarilho continuasse pelo contorno das rochas, era isso que ele veria. Seus pés então tocaram o filete de água, as sandálias de couro se encharcaram. Há tempos a água se esforçaria para tocar as canelas de um Homem, mas dessa vez ele não sentiu o assoalho do rio quando o procurou. Sua perna deixara o apoio das rochas e ele mergulhou até a cintura no rio. Era impressionante. Por trás de um penhasco um milagre ocorria: O simples filete de água se tornava um lago e os barcos encalhados agora balançavam próximo as margens, do outro lado.
A lua era a única a iluminar aquela região. A vila inteira velava num silêncio de expectativa e nem a fome perturbava os sonhos das crianças. Como num impulso inconsciente o homem afundou-se até a cintura no lago, era como se o desenho prateado na superfície do lago o atraísse. E ele se sentiu traindo. Como podia um homem puro trair, os mortais não tinham acesso ao encanto que algo natural podia exercer. Num rompante era como se a necessidade de ter com a Rainha sumisse, e as palavras de um provérbio tocaram seus lábios como um beijo.
“E era bela como sua última irmã, era como a visão do túmulo imaculado, antes de se tocar a chaga, antes de se ter com os olhos da verdade, fria e ríspida de uma mulher”
E eis que ela surgiu. Como a esposa de Arthur, como a mãe dos bretãos. A mulher de pele alva e cabelos negros emergiu de dentro do lago e se encontrou no meio do reflexo límpido da lua. Ela era beijada pela luz da noite e seu corpo dançava com o vento. Ela estava nua, a água tratava-se de vesti-la como o toque de um amante. Quem era a mulher? Não trazia os olhos de Liah, nem a pureza de sua antiga esposa. Mas ela era verdadeira como aquele momento.
A aparição veio desfilando, seu busto era quase revelado pela água, e em seus princípios o Andarilho se fez andar pelo lago que já o cobria até a cintura. Ele não parou até que sentisse a resistência ingênua de se andar sem vacilar. A mulher estendia-se próximo o suficiente, ela era alta o suficiente para ficar à altura, quando a água já alcançava o peito do Andarilho. Eles estavam frente a frente e o vento soprou forte. O barulho parecia capaz de acordar toda a vila e como uma criança nosso homem teve medo, ele vacilara como se as águas fossem o tragar. A mulher apenas sorria, mas a sombra cobria sua face alva, não era possível ver a beleza desnuda, ele era instigado a imaginar o impensável, e uma voz tocou seus ouvidos:
Belo viajante de terras áridas, tive eu que sair do seio nórdico de minha terra para lhe mostrar como fazer? És uma criança tola e com medo de fazer o que lhe foi designado?
E o sopro das águas o fizeram tremer novamente, a mulher lhe olhara como uma sedutora filha de eva. O que ela queria com ele, o que ela queria agitando as ondas contra o filho do Homem? E a chuva caiu, um beijo foi sentido em sua bochecha e o Andarilho perdeu-se de si, ele vacilara novamente e a água revoltou-se como uma força suprema da natureza. Ele sentiu engasgar-se e seus pés não tocavam mais o leito do lago, ele submergiu e sua mão lutou para achar a superfície, o corpo da mulher não estava mais lá e ele afundara. Era a morte? Sua mão rebelou-se novamente e encontrou a superfície, a lua tocou seus olhos e ele sentiu-se puxado para cima. Uma mão fria o ergueu e suas costas chocaram-se contra uma parede de madeira. Era um barco.
Seus olhos encontraram dificuldades em se abrir e ele foi arrastado até ser deitado, era a polpa de um navio. E ele ouvia vozes indistinguíveis, esfregando seus olhos ele permitiu-se um fio de luz, já havia amanhecido? O Sol tocava sua face e no susto seus olhos arregalaram-se de repente. Ele estava num barco e as redes de pesca eram puxadas com violência para fora da água. Aquele povo teria comida, os negros no barco gritavam e seus sorrisos brancos revelaram a alegria de quem tinha suas preces atendidas.
Após treze anos de abandono alguém tinha feito algo por eles, e não havia sido Ele. Os olhos do Andarilho se encheram de lágrimas e um senhor sem os dentes da frente se aproximou animosamente, estendendo-lhe as mãos. Mas o gesto não foi retribuído, o Andarilho vacilara, pela terceira vez, e os sinos de Villas tocaram anunciando a fartura propiciada por seu Deus.
quinta-feira, 3 de setembro de 2009
De um diálogo pela Rainha
Canthalion mantivera-se num cativeiro forçado, apesar de ter burlado a confiança do amigo e perambulado pela cidade algumas vezes. Foi num jantar, no quarto da torre sul em que ele se mantinha, na época da troca da lua, o Andarilho veio a bater em sua porta:
- Achei que já tinha partido para a capital sem mim? Te esperei e aparei meu cabelo por seis noites até que viesse me trazer notícias e você nem se preocupou em pôr uma roupa descente para vir aqui?
- Acho que a falta de brisa da cidade está te tirando do rumo Canthalion, meu amigo, estive andando entre os pobres e ouvindo lamúrias enquanto você comia junto aos sabedores do Rei. Quem teve o maior dos fardos? Pois bem, não estou aqui para reclamar, quero saber se já esteve com ela?
Os olhos do pagão cresceram nesse momento e uma imagem não tão clara, talvez suja e nefasta pela poeira e lama, tomou seus olhos.
- Ela? Ela quem, nem me arrumei um casamento e...
- Não é disso o que falo Canthalion, é da mulher que dobra o rei, tens noção do que ela faz que torna afiada a língua dos conselheiros?
- Ouvi dizer que ela é muito bela, não tanto quanto Tsé, ou. – Neste momento o homem de ombros largos sorriu para dentro de si e se escondeu atrás de uma cadeira. – Ou quanto sua irmã. É uma beleza senhorial, como a de Eneida dos livros!
- Pare de sonhar!
- Dizem ter o cabelo pardo e os olhos aguçados, não há retratos, nada mais posso descrever. Talvez se me arranjassem uma audiência.
O pagão nada mais falou. Anunciou, com um gesto, sua saída e a porta de madeira foi movida com força para que ele passasse. Um dos homens do rei estava à porta, cultivava uma costeleta cheia, olhos rubros e sem passar de um metro e sessenta. O pagão se dirigiu a ele o chamando de Mestre de Cerimônias e foi ele quem me contou sobre esses fatos. O baixinho então seguiu a frente do visitante abrindo as portas até que ele chegasse ao pátio que dava para o sul, era onde um grande baluarte havia sido fixado, e dele toda a vila pobre de trás do rio podia ser vista.
terça-feira, 18 de agosto de 2009
O Capítulo dois...
Poucos acreditariam na verdade a qual eu contarei, decerto, somente quem esteve lá e viu o que eu vi poderia ser chamado de são. O andarilho me contou muitas coisas para que eu pudesse... Eu pudesse relatar a vocês e a sociedade de Ether e Teha’onicelles quando chegasse a hora e meus éditos não fossem mais confiscados. Entretanto ele havia curado um atormentado, havia violado uma tumba e seu irmão de viagem saqueou as catacumbas. Não acho justo que seus diálogos lamuriantes venham para o túmulo deste velho escriba, não mais a serviço do Rei.
terça-feira, 4 de agosto de 2009
Do olhar frio e congelante
Canthalion esperou sete dias pelo pagão, na cidade de Ether. Mal sabia ele que o andarilho havia outros caminhos a percorrer e outras pessoas para ver. Após deixar a casa do enfermo nosso homem seguiu planejando atravessar o riacho negro, tal como uma navalha, aquele filete de água distinguia os homens livres de ex-escravos e uma vila se formava contra o paredão de rochas na divisa de Etheratibag. A visão daquilo era constrangedora, mesmo para um homem de guerra, e uns poucos abutres pareciam partilhar da mesma opinião crua ao se recusarem a voar por ali, se mantendo apenas no alto do penhasco como se chorassem da miséria humana.
Uma criança parda com o dorso de fora correu por ali perseguindo uma bola de meia e uma senhora negra cantava em Egípcio... Não havia guardas ali e ela não seria repreendida, mas ao ver o Andarilho ela se apressou em entrar e fechar a porta do casebre de madeira que tremeu como se fosse cair. O Andarilho entrou na vila e percebeu que muitas bananeiras lutavam contra o chão seco e davam frutos por ali, e algumas crianças insistiam em brincar ao redor do que parecia ser o centro do vilarejo. Levantando poeira com seus pés descalços todos pareciam rumar para um mesmo ponto do lugar, e pela primeira vez o Andarilho levantou a cabeça e viu algo que destoava totalmente de qualquer miséria ou pensamento desolador... Uma linda mulher, de cabelos castanhos e curtos, presos num coque e firmes com ajuda de uma tiara. Ela vestia um vestido longo de seda celeste, mas os pés eram descalços e as mãos e pescoços sem adornos, aliás, suas mãos firmes trabalhavam duramente colocando sacos de mantimentos no chão.
O Andarilho, displicente, andou em direção a ela e estendeu as mãos como se fosse ajudá-la a descarregar a enorme carroça com a marca real, que só agora ele vira. A mulher franzia as sobrancelhas e apesar de um sorriso surgir em sua face ela disse duramente:
- Não preciso de condolências, não mais que essa gente, eu acredito!
E o Andarilho olhou a sua volta e viu que todos os habitantes da vila o encaravam com os olhos caídos e a face amedrontada, até mesmo o maior dos homens havia recuado e um bebe começou a chorar ao fundo. A mulher encarou profundamente ao Andarilho e ele se envergonhou de ter se escondido por tanto tempo:
- Vá homem, não se preocupe em ajudar agora. Você parece ter que fazer muitas coisas antes disso! Se ocupe de si mesmo agora.
E o Andarilho apenas virou e pisou sobre a pouca água que passava pelo riacho, com os pés molhados ele contornou de volta para o ladrilho da cidadela e pensou em Canthalion, pensou em sua irmã e nas catacumbas onde a Rainha de Tsé estava enterrada agora, seu amigo já havia estado tempo demais com os nobres e era perigoso para ele ser seduzido pelo ouro!
domingo, 2 de agosto de 2009
Do Capítulo de Cura
Enquanto Canthalion, o antigo Príncipe, errava ao subornar ao guarda o Pagão ia ter com mais importantes. Estava ele na Rua da Sovada, ou soleira, quando avistou a casa de um homem. O bom senhor se chamava Kéofas e segundo os vizinhos queimava em febres e delírios. Decerto havia dias que estava de cama.
O Pagão entrou na fila que encaminha os visitantes para orar pelo enfermo segundo a tradição. Ninguém se identificava apenas se ajoelhava no assoalho, ao pé do leito, e murmurava enquanto manuseavam as contas. Quando chegou a vez de nosso amigo, ele não se ajoelhou, não disse bênçãos aos anfitriões, Apenas repousou a mão nas faces da pedra:
- Senhor, Senhor!- Urrou Kéofas como se estivesse numa tempestade. - O senhor vai se afogar!
Ele repetia isso na língua primitiva “- Jeová, Jeová! -“
-Não tenhas medo!- Exclamou o pagão. – Venha ao meu encontro.
Ao ouvir isso Kéofas, esbugalhou os olhos, como se despertasse de um transe. Tossindo e levando as mãos para o alto ele se engasgava com a água que saia de sua boca, como se fosse um náufrago.
Os homens da casa, irmãos de Kéofas, eram onze e apenas disseram.
- Mas os médicos nos disseram que ele estava desidratado, não bebia água há dias. Como pode agora se engasgar como se saísse do mar.
E o Pagão nada disse e se retirou da morada.
quinta-feira, 30 de julho de 2009
De como um Príncipe antigo volta a um Palácio
O homem que conduzira Canthalion era chamado de Mestre de Cerimônias e estava agora conversando com um dos guardas que ali estavam. O baixinho de costeletas compridas era engraçado no seu modo de agir, balançava os braços agitada e, às vezes, até freneticamente, enquanto o guarda ouvia suas lorotas envaidecidas. Debaixo da sacada onde os três estavam se via um lago comprido cercado por um pátio, uma redoma, de mármore puro e amarelado. Lá escribas gordos e papudos escreviam, estavam descamisados e esparramados pelo chão em poses esdrúxulas e não muito confortáveis. No lago vários guardas se refrescavam e além das “escravas” sírias não se via outras mulheres.
Canthalion passava os dedos pelo parapeito da sacada de um lado para outro, e de vez em quando levantava os olhos para além do horizonte, ficou assim no mínimo três quartos de horas e quando os guardas se preparavam para fechar o portão de acesso à cidade, apesar de haver, ainda, muitos homens e carroças tentando atravessar a ponte, ele foi surpreendido por um dos guardas:
- Alto jovem senhor!- Gritou o guarda.
- Boas, meu caro companheiro. – disse ele em tom jovial e prosseguiu. – Estou acompanhado e espero as honras de... - Mas foi interrompido pelo mesmo guarda.
- Sua sala está pronta, tudo está no nome de Canthalion de Vilas, aqui está sua permissão de estadia. O senhor pode seguir para o segundo piso!
Quando Canthalion se virava para a escadaria no centro do prédio o guarda o interrompeu:
- Espere! Onde está o pagamento?
- Acho que estava devidamente entregue junto com o pedido de morada, ou estou enganado? – Disse Canthalion escondendo o sorriso amarelo.
- Este já foi pago. Falo pelo de transporte. - Explicou o guarda. – Há uma carroça que o espera, disse que chegou com a última leva e está com uma encomenda para o senhor, deve ser pago então o tributo de cargas.
- Ah, sim. Eu compreendo, não há mal algum, me leve até o carroceiro. – E enquanto entregava um embrulho ao guarda disse:- Acho que isto deve bastar.
Entre os panos do embrulho havia uma taça de prata que Canthalion violara das catacumbas.
terça-feira, 28 de julho de 2009
De um passado já distante!
“Era tempo das colheitas e uma criança brincava as margens do antigo rio Jordão. As tropas de recolhimento passariam a qualquer momento e os camponeses juntavam suas possessões, ninguém ali gostaria de esperar a chegada dos cavaleiros do Rei para se retirar do campo. Touthot era o nome do guardião daquele povo e ele gritava para os quatro cantos dizendo que os espoliadores já estavam no horizonte. A mãe do menino puxou-o pelo braço, mas suas mãos suadas escorregaram por aquele corpinho miúdo.
- Dante! Já é tempo!- Gritou ela, apesar de estar a um braço do menino.
Os escotilhos passaram de camelo pelo rio e atravessaram para a outra margem...
- Kaçış, Kaçış!!!
Mas em poucos segundos os cavaleiros do rei surgiram, alcançaram os saqueadores e extirparam os magros camelos e seus escotilhos, na frente de um pobre menino branco do sul. A mãe não viu a cena excruciante, correra com os gritos de aviso e estava a cem passos do rio e não olhava para trás. Perder um filho já era comum para os Sírios. Nos dez anos antecessores eles perderam cinqüenta e cinco mil cabeças.
- Çalıştır'ı barış çocuk için!- Gritou uma voz irreconhecível para o menino, mas temida pelos carrascos, naquele momento os cavaleiros que ainda tinham sangue nas mãos, fugiram com a mesma velocidade.
O menino não entendeu a língua do seu salvador, ele não havia freqüentado os Sabedores e não reconhecia a língua geral. “Drushka, Drushka...” Ele sussurrava silabicamente. Mas o filho do rei, o Príncipe da capital, não o escutou. Desceu de seu cavalo e banhou-se até os joelhos na pouca água do Jordão. “O menino ficou sozinho, mas nunca esqueceu aquele homem de cabelos longos e desgrenhados.”
Se aquele menino visse agora o homem que saia da encruzilhada de catacumbas e se esgueirava na rua do comércio de Etheratibag ele não o reconheceria. De cabelos rentes e resmungando como um velho babilônico, Canthalion rumou para o centro sem a maca que carregava antes. Ele subiu as escadarias para o segundo andar da cidade rumo ao sabedouro dos escribas e teria sido parado pelos guardas da escadaria se um homem atrás deles não assobiasse em sua direção.
O homem era baixo e tinha cabelos volumosos e costeletas consideráveis até a entrada do queixo. Ele não falou seu nome e tinha gestos comedidos, guiou o antigo Homem pelo braço e girou a maçaneta de uma grande construção no final do grande corredor que cortava a baixa cidade. Com grandes módulos reluzentes e janelas grandes em suas laterais, a obra faraônica era vermelho sangue e avistava toda a entrada da ponte para Etheratibag, mas as catacumbas eram obtusas demais para serem denunciadas. Quatrocentos cavaleiros do Rei residiam naquela morada e rezavam, ou fingiam, pela paz e consciência.
Da janela da face norte da morada se via toda a grande movimentação da cidade, na rua do comércio, na qual Canthalion havia se esgueirado, no entanto, não dava para se distinguir ninguém. Suas marquises eram compridas e apesar dos diversos decretos e marteladas que elas sofriam continuavam a esconder os pagãos, Sírios e exilados. Havia uma verdadeira ordem de proteção às minorias em Ether.
Entretanto Ellijah, o regente da cidade nada fazia para evitar a disseminação da liberdade em sua cidadela. No início poucos achavam que era sinal de sua benevolência, agora ainda menos gente acredita nessa caridade. Na verdade, é justo dizer, Ellijah era um verdadeiro corrupto e explorava e dizimava constantemente os refugiados, suas ânsias sexuais eram satisfeitas com as filhas dos constantes prisioneiros que fazia o que diminuía ainda mais as esperanças dos Sírios em criar raízes na cidade. Como nem o conselho de Fazeerd e nem a população de gente livre sabia desses abusos ele era considerado o mais liberal e benevolente dos regentes.
O conselho envia diariamente decretos e cavaleiros seus para influir na política de Ellijah, mas apenas uma pessoa tinha esse poder, e ela se chama Gia.
segunda-feira, 27 de julho de 2009
De Etheratibag!
O caminho para Etheratibag era longo, mas dezenas de caravanas de camelos cruzavam a ponte todos os dias da quinta à oitava hora de Sol. Ermahnur Ellijah havia expedido ordens de recolher para evitar entrada de pagãos na cidade, não era por acaso que o primeiro a olhar em direção as fronteiras da cidade de Etheratibag avistaria o grande Mármore do templo de Alah.
O grande problema de Ellijah e dos olhos centrais de Abul eram as catacumbas malditas. Dezenas de ex-escravos, e os moribundos que sobreviviam à travessia do deserto Sírio para fugir do exílio, passavam por aqueles encanamentos que antes guardavam relíquias dos deuses pagãos e que foram queimados e saqueados pela guarda hostil. Era nesse cenário de angústia e destruição que estavam um homem alto e com a cabeça recentemente raspada, era visível, e seu companheiro igualmente alto que carregava apenas uma bolsa de pele de cordeiro, sua cabeça também não ostentava sinais da considerável cabeleira que ele tivera.
Nas costas de Canthalion, estava uma esteira amarrada e sustentada por troncos finos nas laterais que escondiam algo, comprido e maleável:
- Tínhamos mesmo que raspar nossas cabeças, isto é tão hipócrita!
- Você quer entrar mesmo na cidade com vestes e face de pagão Canthalion, meu caro!
- Já estou carregando algo mais denunciável que nossos atos e aparência juntos! Não quero ninguém da guarda hostil me parando e me revistando!
- Aguarde aqui!- Pediu o pagão.
- Aonde vais? Tu não podes sair por aí sem mim...
- Não se esquece meu caro príncipe já estive em Teha’onicelles, aqui em Ether não será diferente!
Quando o pagão se virou numa curva da catacumba Canthalion se viu sozinho e longe de casa. A verdade é que há muito ele não tinha uma casa, mas como isso lhe faltava... Junto das paredes havia um homem negro e muito machucado já, era triste, mas sabido que se ele saísse das catacumbas em busca de Cura ele seria chicoteado até que suas últimas forças se esvaíssem.
Era triste, era doloroso... Estar nas cidades dos sem nomes!
domingo, 26 de julho de 2009
O Andarilho de Jerusalém...
Era ainda parte dos tempos secos. Não chovia havia uma centena de dias e Abul Fazeerd ainda estava nas cidades e habitava no templo. Muitos tinham medo dele, e atravessavam as ruas com medo de sua autoridade, outros o maldiziam, mas estes eram outros mesmo...
Nosso outro homem havia chegado às cidades há três dias e ninguém sabia de seu passado, trabalhava como ferreiro, e não ia aos templos, por isso o chamavam de pagão. Muitos que chegavam de Teha’onicelles diziam tê-lo visto lá, mas ele não falava... Pagão também tinha dívidas com uma moça: Eleanor, que era de Jerusalém, ela o acolheu junto de seus outros irmãos e dava o pão para eles.
Os cinco homens moravam em Vila, e muitos os blasfemavam chamando-os de Egípcios, mas o pagão ficava alheio a tudo. Os quatro irmãos de Eleanor eram criminosos confessos e já cumpriram cárcere em Leão, Pagão, no entanto era muito agradecido a eles e continuava sem falar...
O único que havia ouvido sua voz era um homem pardo de tez branca, cabeludo, com barba cheia e longos cabelos, ele morava perto da estrada frente ao antigo mosteiro na região das cidades. Todos o estranhavam, mas como ele ajudava a todos, principalmente com os carregamentos, poucos o blasfemavam, por causa de seus cabelos longos. Todos os homens que ocuparam o velho mosteiro haviam raspado a cabeça com navalha e vestiam-se de marrom e odiavam os egípcios e os gregos...
Pagão, num fim de quinzena de dias, pegou sua trouxa e como de costume partiu em direção ao centro das cidades. A viagem não durava muito, mesmo a pé, porém um altivo senhor o único com cabelos longos o esperava com a carroça na saída da Vila, este senhor tinha como nome Canthalion.
Pagão subira junto à cevada que era transportada na parte traseira da choça, e não cumprimentara o guia... Eles seguiram rumo ao velho mosteiro, mas não pararam lá, atravessaram a ponte de Leão, mas como os guardas vigiavam a zona do exílio, cortaram então até os montes de Enthel. De lá viram os descamisados trabalhando no Exílio, a túnica cor vinho do pagão estava suada, e água este não o portava, mas pagão deu graças por não estar lá embaixo, nos vales.
Eles pararam então perto de Rocas onde havia um manancial que parecia virgem e intocado. O lugar devia ficar a um terço de léguas da cidade de Rocas, onde habitavam quarenta mil homens, mesmo assim o leito era puro. Os dois homens se abraçaram e beberam da água, Canthalion, então se levantou e com um cajado se aproximou da face cinza da montanha, arrastou uma pedra tumular até então disfarçada pela selva, e revelou uma câmara. De dentro um cheiro de oliva vinha seduzindo a todos os dois, Pagão chorava com as mãos a cobrir a sua face esquelética.
Canthalion sumiu dentro da câmara e voltou de lá carregando um corpo, envolto num tecido alvo e branco, parecia imaculado... Era uma mulher jovem, trinta anos, face branca como a cera, e o cabelo negro desnudo em todo o seu comprimento, ela parecia serena. Canthalion que a carregava firmemente nos braços, em contraponto a Pagão, sorria, mesmo que uma lágrima insistisse em lhe cair, ele percorrera tanto, para chegar ali.
Por Tanto tempo Canthalion esperara que não lembrava mais daquela sensação de aconchego que percorrera sua pele naquele instante. A moça em seus braços era ninguém senão a Rainha de Tsé. O Pagão alheio a tudo lavou os pés e as mãos e beijou aquele rosto frio:
- Não podemos contar a tua irmã!
- Eu sei.- Vociferou o de longos cabelos...- Ela não entenderia.
- Na verdade ela sabe que vamos morrer, ela nem acredita na volta dos Mendjhad!
- Por isso vamos fugir!
- Não pode esperar o solstício. - Clamou o pagão.
- Não será hora! Há uma dúzia de anos eu era príncipe. E agora?
- És um pagão, mas um pagão de fé!
sábado, 18 de julho de 2009
A Nova Terra
“As cidades foram fundadas por Abul Fazeerd como modo de centralizar o poder político na região. O controle das áreas mais populosas da costa leste do mediterrâneo foi dado a Abul depois da divisão Judaica e a nova égira. Abul tomou por controle desde o norte com a grande polis de Teha´onicelles, o nordeste com os vales até Leão e o monte Enthel, a região do centro onde fica a Citadela de Tel’Aviv, o leste com Vilas e até a extensão de Jahlalabad, o sul lhe é dividido com o Imperador Sírio onde ficam os maiores campos de exílio, e o oeste é controlado da cidade Adriática por Edron, o único que aceitou o cargo.
Não chove, não venta, os barcos quando não mareiam, encalham. A censura é imposta, os ídolos de ouro e bronze foram queimados e os de prata e cera quebrados, Baderna e cerveja são proibidos. Aqueles que são naturais das cidades podem viajar tranqüilamente entre elas, mas não poderão deixá-la sem permissão, e os imigrantes devem se apresentar ao Rei e abandonar sua religião. A língua oficial é o aramaico e qualquer manifestação em egípcio, grego, ou islã é proibido. Não se pode falar ou agitar multidões sem a autorização dos mestres-de-lei. É inútil desobedecer, as covas estão abertas, e as cordas apertadas. ”
Ermahnur Ellijah, Mestre-de-lei.
