A manhã surgia fazendo o Sol se debruçar como uma criança no horizonte. Nosso Homem ainda manteve-se em Villas em virtude dos últimos acontecimentos, era como o tempo para refletir. Ele ainda não entendia como alguém, há anos, pode pedir sabedoria ao seu Deus, quando se podia ter qualquer outra coisa. Entretanto, claro como a água, a necessidade de entender se fez presente. Era tempo de refletir, diversos sinais lhe eram lançados pela Terra e pela água. O Pai não poderia esperar.
Eis então que Canthalion pisou em solo impuro, em busca do amigo. O forte homem de Gideão abandonara o palácio em companhia do Mestre de Cerimônias e tomou o caminho de areia até a presença de seu amigo peregrino. Foi ter com ele na margem do rio, que agora jazia cheio, em seu leito irregular. O sorriso de Canthalion não podia ser medido e este se curvou perante a presença do amigo:
- Ora, ora! És agora o Andarilho de Villas, abandonastes a Rainha e tornara-se amigo dos egípcios?
- Fale baixo homem sem fé! Você assusta ao povo desse lugar com suas vestes reais. E seu amigo Mestre, precisava vir fardado? Eu preciso de tempo antes que o verdadeiro tempo chegue. Eu ainda não sou digno de conhecer a mulher do Regente.
- E isso tudo é... Medo?
Dessa vez Canthalion sussurrara ao amigo. Alguns aldeões se agrupavam, já preocupados com a presença de Cidadãos em sua vila. O Andarilho pousou as mãos sobre o ombro largo do amigo e arrastou para uma caminhada pelo leito. O Mestre de Cerimônias viria a narrar depois que ambos sumiram de vista, indo até próximo do base do penhasco, mas antes disso eles foram interpelados por uma mulher vestida com a cor dos céus:
- Homens de fé! Vieram na intenção de ajudar aos pescadores, ou finalmente porão à tirar-lhes da pesca infrutífera?
Aquelas palavras foram dignas de espanto para Canthalion, mas o Andarilho apenas sorriu, envergonhado. A mulher já trabalhava em Villas a mais tempo que o peregrino havia pousado o pé naquele solo e, em verdade, ela lhe parecia digna de sua compleição santa. O riso bobo tomou a face do nosso Homem e nesse momento seu amigo do Norte o puxou para fazê-lo voltar a andar. As palavras de irritação de Canthalion não foram ouvidas, o Andarilho se preocupava com coisas maiores agora do que a interpretação humana de seu amigo:
- É um absurdo homem! Agora esses egípcios vão nos acusar de roubo? E eu lá quero esses peixes, tenho um aposento no castelo se ela quer saber, tenho feito quatro refeições ao dia, tirando o desjejum! - O Robusto homem continuava a bradar, coçando a careca mal aparada.
Os amigos, tão distintos por suas experiências continuaram a contornar o lago até obterem uma vista em profundida de Etheratibag, com Villas ao sul. Os olhos do Andarilho se encheram de lágrimas o que fez seu amigo parar de resmungar. A vista do amanhecer era bela como o nascer da vida, era como o abraço da Sara em seu povo, era como o erguer de cajado do Pai, chamando os filhos para a casa.
Uma nova decisão se abria aos olhos do peregrino sem nome, ele começava a enxergar os mistérios a sua volta. Como uma mulher poderia constranger a tantos homens, homens que guardavam as forças mais diversas possíveis. Ele então imaginou uma mulher vestida de Céu, com o Sol sobre sua cabeça, ela conversava com os 12 homens mais inteligentes do Templo, e eles se admiravam com ela. Sim, era preciso, era necessário reconhecer! “Pai, dê-me a sabedoria necessária”
E o Andarilho rezou.
quarta-feira, 11 de novembro de 2009
Um tempo para se pensar II
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