Como me foi encarregado, devo continuar o relato que marcou a transição. Como o jovem peregrino conheceu as coisas do mundo e se tornou o nosso Homem. E isso envolve os fatos tristes e dignos de nota. Como já foi contado, muito disso se baseia em cartas de uma bela enfermeira da Capadócia, e outra parte nos foi apresentada por um jovem, jovem que se tornaria amigo e irmão do Andarilho por um tempo. Ele seria chamado pelo Peregrino de Alquimista, esse era o desígnio que lhe cabe em nossa história, vamos continuá-la então.
O guerreiro chamado de Seth continuava trabalhando nas defesas de Gideão e sua esposa Laura cuidava das necessidades do jovem a ela confiado. O menino então aproveitou para conhecer os rebanhos e cuidar do estábulo, lhe foi dado tempo para ler e estudar, mas o que ele mais esperava era a chegada de Seth com as histórias da capital.
Contou-lhe então, o guerreiro, sobre as impressões da cidade sobre a presença do povo de Tsé. As palavras de estímulo e independência eram bem aceitas pela nação de Gideão e isso enchia os olhos do Peregrino, sua irmã ainda habitava no templo, com seus encarregados e segundo Seth logo viria o Capitão do Sul, um importante comandante de nome Baltazar. A ele fora encarregada a função de proteger as margens do Tigres e liderar o povo que outrora seguiu a Assur. Baltazar era sábio e segundo Seth fazia um grande trabalho, ele morava na margem mais Austral do Rio e percorria o deserto com seu cavalo, que nunca havia pisado aquém do Tigres. O exército de Gideão nunca avançou rumo ao oeste, rumo a capital e essa era a maior virtude deles, de sua defesa inquebrável. A última invasão do exército de Assur acontecera a cinco qüinqüênios.
Ao ouvir isso o Peregrino abaixou a cabeça, ignorando o orgulho de Seth e as palmas animadas de Laura, avisando que a ceia estava pronta. Um exército que nunca marchava, que ficava encolhido entre as montanhas? Então ficou clara a decisão de sua irmã para o menino que virava homem. Baltazar era sábio ao não confrontar o regime de Ellijah, enquanto todo o povo aquém do Tigres sofria nos exílios, fora o povo além da Assíria, onde pisavam, os palestinos perdidos no norte e o povo Muçulmano, agora sem terra. Para o peregrino, Baltazar era um grande covarde e ele havia tomado essa impressão sozinho, sem que ninguém lhe sussurrasse e pela primeira vez ele se sentiu sábio, de verdade.
terça-feira, 5 de janeiro de 2010
Um exército pra nada...
segunda-feira, 30 de novembro de 2009
Um retrato inalcançável ao Jovem Peregrino.
Tsé ficara responsável em subir para o Castelo do Rei Gideão e com ela foram 7 soldados da Capadócia, acompanhados de 13 soldados Assírios. Um alto Touro alado podia ser visto no centro da cidade, onde ficaria o mercado, mas o peregrino de Tsé não poderia ir até lá. Foi posto, antes, aos cuidados de uma mulher idosa que o levaria de camelo até uma aldeia fundada pelo próprio Assur. A travessia não era longa e ao anoitecer do mesmo dia ele estava sendo recebido na porta de uma casa simples, mas bem adornada, e com um campo enorme entre o planalto do vale do Rio Tigre.
A cabana era de madeira firme, pintada de branco por mãos fortes e bem acabada, demonstrando o zelo de uma família da região. Era bem sabido que o Rei Assur havia deixado bons ensinamentos e uma boa escola para os Guerreiros de Gideão que conseguiam se distanciar eficazmente do Regente de Etheratibag. Logo a mulher encarregada havia de partir com o camelo, mas antes fora recebida pela Matriarca de nome Laura. Era vinda do mediterrâneo, mas cultivava os bons costumes e assumia um bom papel cuidando de um lar Árabe, era notável que ela estava grávida e por isso a felicidade do lar era completa.
Não havia ainda crianças por lá, mas os adornos de seda deixavam claro a esperança de que o primeiro filho nascesse logo. Laura fora simpática e sorria sempre para a visitante e para o jovem que devia abrigar. Seria, sim, uma mãe jovem, de feições generosas e cabelos loiros. Era farta em peso e em coração também, e isso era evidente em seus olhos claros. Logo que a encarregada do jovem saiu chegou o patriarca, feliz e agraciado com a vitória do dia. Seu nome? Significava o maior de todos os atributos dos filhos de Gideão: O guerreiro, Seth.
Marido e mulher se beijaram apaixonadamente, ainda que não houvesse beleza na cena. O homem possuía a face redonda e inchada e Laura já era atingida pela peso da gravidez. Algo maior iluminava aquele momento, e disso o Peregrino ainda não entendia. Ele fora recolhido como um filho pelo homem que lhe levou para montar em seu cavalo raçudo e mostrou-lhe sua cimitarra e sua armadura real. Fora o mais próximo que ele chegara de um amor tão jovem e tão repleto de luz, era como ver dois leões caçando e ver a beleza disso.
sábado, 21 de novembro de 2009
A primeira viagem do Andarilho
Nas vésperas de completar a sua maioridade o menino franzino e de aspecto adoentado, conhecido apenas como peregrino e irmão de Tsé, meteu-se em uma jornada rumo ao monte de Gideão. Era da vontade de seus pais que ele fizesse isso, então o jovem acomodou-se ao lado da irmã numa caravana que partia no início da primavera. Alguns camelos se ajuntaram a eles, também foram doze adoradores, mulheres com crianças e carneiros, homens de bem e ex escravos fugidos de Roma. Eles peregrinariam por muito tempo, sob o Sol do Médio Oriente e seriam conduzidos por uma mulher de fibra.
Mas era certo, aos olhos de seu irmão, que Tsé jã não era a mesma jovem de antes. Seu aspecto motivador e suas palavras não continham a mesma força de antes e o pequeno homem, que já passava em altura à irmã e à maioria dos homens da caravana se sentia pressionado por isso. Escondido de todos então ele tinha levado quinze folhas de pergaminho lhe concedidas por um soldado de Roma que havia sido ferido em batalha e largado perto da fronteira norte do Lebanon. O pergaminho velho e rasgado continha os dizeres iniciais. “Cartas e preces de Salomão por sabedoria.”
O menino irrequieto em saber, aproveitava as noites escorraçadas pelo vento do deserto e lia as orações sob a tenda de sua irmã, que dormia. Nas manhãs ele se sentava ao lado dela e ouvia suas, já poucas, palavras de esperança. A comida era simples, mas as mulheres tratavam de preparar as provisões e guarnecer as jarras de água, para que elas não acabassem. Os homens mantinham-se de guarda, ao lado dos carneiros e das carrocerias. E Tsé tinha como única responsabilidade pregar, e as palavras dela iam tocando ao irmão, o jovem já era mais atento ao que via e começava a reconhecer o trabalho dos sábios. Só não entendia o porque de ter que esperar o silêncio das noites para ler o testemunho de um Rei tão sábio. Porque só cabia à Roma guardar aqueles ensinamentos?
E as palavras de Tsé e Salomão se cruzaram por diversas vezes: “Tal qual nosso inimigo, assim devemos ser nós. Não nos difere a raça, a crença ou os costumes. Respiramos do mesmo ar, comemos dos mesmos ingredientes que são nos dado pela natureza e por um Deus justo. Shalon pela paz dizem os nossos irmãos da costa Mediterrânea e assim eu vos digo, Paz, paz aos homens que tem feito o bem!”
O jovem peregrino aplaudia e assim faziam todos que se sentavam ao redor de Tsé. Estavam indo ao monte Gideão, todos os filhos da mesma linhagem, estavam em busca de paz. Desde o Norte até o Sul do Egito e toda a Terra. Eles caminharam por cinco ciclos da Lua, já era a oitava noite sem lua que eles enfrentavam. E nessa ocasião eles chegaram às margens de um rio, era o rio de Tigre, próximo à Assíria dos Judeus. Onde vivia os bravos homens de Gideão.
domingo, 15 de novembro de 2009
De um passado escrito há muito!
O seguinte manuscrito foi encontrado na região da Capadócia, perto dos montes onde se acreditava viver o Andarilho e sua irmã Tsé, eles eram filhos de uma linhagem pagã, era certo, não professavam A Religião Romana e não pagavam os impostos do governo do Médio Oriente. Tais palavras passaram nas mãos do Mestre de Cerimônias, antes que ele assumisse sua posição de poder. O manuscrito, então, tinha sido reproduzido após chegar às mãos de uma enfermeira residente do litoral do Mar Negro. Ela escrevia cartas e se correspondia com alguns patriarcas do Povo de Tsé, entre eles um jovem que se identificava apenas como Peregrino Sem Nome, isso era devido a repressão do Governo Central e isso deu a eles a chance de uma amizade, ou quem sabe, a esperança de serem livres com seus povos.
“Eu cresci perto de homens com muito a ensinar e de gente sem vontade para escutar. Eu ainda me pego, à noite, imaginando o que farei daqui há alguns anos. Eu terei que partir e deixarei mamãe e papai para trás, eu tenho tanto a ensinar, a fazer pelas crianças daqui e eu estou preso a uma condição de silêncio. Isso me dói, amiga. Foi preciso que uma menina, recém debutante me viesse dizer: 'Saia da ilusão irmão querido, você nos ilumina com suas histórias, com suas palavras. Todos em Tsé gostam de ouvir-te falar, você é como um semeador de sonhos, não pare com seus cânticos fantasiosos. Mas lá fora, não há tempo para mentiras imaginadas, elas não te darão a comida de cada dia. Sê grande homem e lute com suas armas, palavras são como as piores flechas envenenadas, elas grudam e ferem por semanas... Irmão querido!'
Depois disso eu voltei a te escrever, realmente o meu sonho está longe daqui, eu nem posso enxergá-lo com meus olhos oblíquos. Papai ainda me chamava de “ave de grande alcance” podia alcançar até os mais velhos com minha imaginação. Eu ainda rezo pra ser assim, pra não ter me perdido, rezo para a pena e o papel estarem ao meu lado quando eu acordar, antes que eu tenha que partir.
Um fardo muito grande se aproxima de Tsé. Minha irmã viaja semana sim, semana não e volta com uma expressão cada vez mais derrotada, seu sorriso branco não é suficiente para manter nossa fé. E eu temo que daqui há alguns anos essa responsabilidade recaia sobre mim.
Enfermeira, ainda iremos nos encontrar, eu queria curar os homens com as mãos, como você faz. Mas eu tenho tido sonhos, e é só palavras que saem de minha boca, papai ainda diz 'são palavras que curam Aharyn, meu filho. Palavras de poder, reze agora. Reze.' E eu rezo, todas as noites, rezo para me tirarem daqui, me levarem para o Monastério, me levarem para Nova Alexandria. Mas eu sou pobre e minhas palavras ainda não me fazem voar. Eu ainda queria voar, enfermeira, queria voar, queria ir para o lugar dos sábios, quero me casar e ter meus filhos numa esteira adornada com ouros, quero ir as feiras de Jalalabad com eles. Dai-me licença, agora eu vou rezar com Baba.”
quarta-feira, 11 de novembro de 2009
Um tempo para se pensar II
A manhã surgia fazendo o Sol se debruçar como uma criança no horizonte. Nosso Homem ainda manteve-se em Villas em virtude dos últimos acontecimentos, era como o tempo para refletir. Ele ainda não entendia como alguém, há anos, pode pedir sabedoria ao seu Deus, quando se podia ter qualquer outra coisa. Entretanto, claro como a água, a necessidade de entender se fez presente. Era tempo de refletir, diversos sinais lhe eram lançados pela Terra e pela água. O Pai não poderia esperar.
Eis então que Canthalion pisou em solo impuro, em busca do amigo. O forte homem de Gideão abandonara o palácio em companhia do Mestre de Cerimônias e tomou o caminho de areia até a presença de seu amigo peregrino. Foi ter com ele na margem do rio, que agora jazia cheio, em seu leito irregular. O sorriso de Canthalion não podia ser medido e este se curvou perante a presença do amigo:
- Ora, ora! És agora o Andarilho de Villas, abandonastes a Rainha e tornara-se amigo dos egípcios?
- Fale baixo homem sem fé! Você assusta ao povo desse lugar com suas vestes reais. E seu amigo Mestre, precisava vir fardado? Eu preciso de tempo antes que o verdadeiro tempo chegue. Eu ainda não sou digno de conhecer a mulher do Regente.
- E isso tudo é... Medo?
Dessa vez Canthalion sussurrara ao amigo. Alguns aldeões se agrupavam, já preocupados com a presença de Cidadãos em sua vila. O Andarilho pousou as mãos sobre o ombro largo do amigo e arrastou para uma caminhada pelo leito. O Mestre de Cerimônias viria a narrar depois que ambos sumiram de vista, indo até próximo do base do penhasco, mas antes disso eles foram interpelados por uma mulher vestida com a cor dos céus:
- Homens de fé! Vieram na intenção de ajudar aos pescadores, ou finalmente porão à tirar-lhes da pesca infrutífera?
Aquelas palavras foram dignas de espanto para Canthalion, mas o Andarilho apenas sorriu, envergonhado. A mulher já trabalhava em Villas a mais tempo que o peregrino havia pousado o pé naquele solo e, em verdade, ela lhe parecia digna de sua compleição santa. O riso bobo tomou a face do nosso Homem e nesse momento seu amigo do Norte o puxou para fazê-lo voltar a andar. As palavras de irritação de Canthalion não foram ouvidas, o Andarilho se preocupava com coisas maiores agora do que a interpretação humana de seu amigo:
- É um absurdo homem! Agora esses egípcios vão nos acusar de roubo? E eu lá quero esses peixes, tenho um aposento no castelo se ela quer saber, tenho feito quatro refeições ao dia, tirando o desjejum! - O Robusto homem continuava a bradar, coçando a careca mal aparada.
Os amigos, tão distintos por suas experiências continuaram a contornar o lago até obterem uma vista em profundida de Etheratibag, com Villas ao sul. Os olhos do Andarilho se encheram de lágrimas o que fez seu amigo parar de resmungar. A vista do amanhecer era bela como o nascer da vida, era como o abraço da Sara em seu povo, era como o erguer de cajado do Pai, chamando os filhos para a casa.
Uma nova decisão se abria aos olhos do peregrino sem nome, ele começava a enxergar os mistérios a sua volta. Como uma mulher poderia constranger a tantos homens, homens que guardavam as forças mais diversas possíveis. Ele então imaginou uma mulher vestida de Céu, com o Sol sobre sua cabeça, ela conversava com os 12 homens mais inteligentes do Templo, e eles se admiravam com ela. Sim, era preciso, era necessário reconhecer! “Pai, dê-me a sabedoria necessária”
E o Andarilho rezou.
