terça-feira, 4 de agosto de 2009

Do olhar frio e congelante



Canthalion esperou sete dias pelo pagão, na cidade de Ether. Mal sabia ele que o andarilho havia outros caminhos a percorrer e outras pessoas para ver. Após deixar a casa do enfermo nosso homem seguiu planejando atravessar o riacho negro, tal como uma navalha, aquele filete de água distinguia os homens livres de ex-escravos e uma vila se formava contra o paredão de rochas na divisa de Etheratibag. A visão daquilo era constrangedora, mesmo para um homem de guerra, e uns poucos abutres pareciam partilhar da mesma opinião crua ao se recusarem a voar por ali, se mantendo apenas no alto do penhasco como se chorassem da miséria humana.

Uma criança parda com o dorso de fora correu por ali perseguindo uma bola de meia e uma senhora negra cantava em Egípcio... Não havia guardas ali e ela não seria repreendida, mas ao ver o Andarilho ela se apressou em entrar e fechar a porta do casebre de madeira que tremeu como se fosse cair. O Andarilho entrou na vila e percebeu que muitas bananeiras lutavam contra o chão seco e davam frutos por ali, e algumas crianças insistiam em brincar ao redor do que parecia ser o centro do vilarejo. Levantando poeira com seus pés descalços todos pareciam rumar para um mesmo ponto do lugar, e pela primeira vez o Andarilho levantou a cabeça e viu algo que destoava totalmente de qualquer miséria ou pensamento desolador... Uma linda mulher, de cabelos castanhos e curtos, presos num coque e firmes com ajuda de uma tiara. Ela vestia um vestido longo de seda celeste, mas os pés eram descalços e as mãos e pescoços sem adornos, aliás, suas mãos firmes trabalhavam duramente colocando sacos de mantimentos no chão.
O Andarilho, displicente, andou em direção a ela e estendeu as mãos como se fosse ajudá-la a descarregar a enorme carroça com a marca real, que só agora ele vira. A mulher franzia as sobrancelhas e apesar de um sorriso surgir em sua face ela disse duramente:
- Não preciso de condolências, não mais que essa gente, eu acredito!
E o Andarilho olhou a sua volta e viu que todos os habitantes da vila o encaravam com os olhos caídos e a face amedrontada, até mesmo o maior dos homens havia recuado e um bebe começou a chorar ao fundo. A mulher encarou profundamente ao Andarilho e ele se envergonhou de ter se escondido por tanto tempo:
- Vá homem, não se preocupe em ajudar agora. Você parece ter que fazer muitas coisas antes disso! Se ocupe de si mesmo agora.
E o Andarilho apenas virou e pisou sobre a pouca água que passava pelo riacho, com os pés molhados ele contornou de volta para o ladrilho da cidadela e pensou em Canthalion, pensou em sua irmã e nas catacumbas onde a Rainha de Tsé estava enterrada agora, seu amigo já havia estado tempo demais com os nobres e era perigoso para ele ser seduzido pelo ouro!




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