Era ainda parte dos tempos secos. Não chovia havia uma centena de dias e Abul Fazeerd ainda estava nas cidades e habitava no templo. Muitos tinham medo dele, e atravessavam as ruas com medo de sua autoridade, outros o maldiziam, mas estes eram outros mesmo...
Nosso outro homem havia chegado às cidades há três dias e ninguém sabia de seu passado, trabalhava como ferreiro, e não ia aos templos, por isso o chamavam de pagão. Muitos que chegavam de Teha’onicelles diziam tê-lo visto lá, mas ele não falava... Pagão também tinha dívidas com uma moça: Eleanor, que era de Jerusalém, ela o acolheu junto de seus outros irmãos e dava o pão para eles.
Os cinco homens moravam em Vila, e muitos os blasfemavam chamando-os de Egípcios, mas o pagão ficava alheio a tudo. Os quatro irmãos de Eleanor eram criminosos confessos e já cumpriram cárcere em Leão, Pagão, no entanto era muito agradecido a eles e continuava sem falar...
O único que havia ouvido sua voz era um homem pardo de tez branca, cabeludo, com barba cheia e longos cabelos, ele morava perto da estrada frente ao antigo mosteiro na região das cidades. Todos o estranhavam, mas como ele ajudava a todos, principalmente com os carregamentos, poucos o blasfemavam, por causa de seus cabelos longos. Todos os homens que ocuparam o velho mosteiro haviam raspado a cabeça com navalha e vestiam-se de marrom e odiavam os egípcios e os gregos...
Pagão, num fim de quinzena de dias, pegou sua trouxa e como de costume partiu em direção ao centro das cidades. A viagem não durava muito, mesmo a pé, porém um altivo senhor o único com cabelos longos o esperava com a carroça na saída da Vila, este senhor tinha como nome Canthalion.
Pagão subira junto à cevada que era transportada na parte traseira da choça, e não cumprimentara o guia... Eles seguiram rumo ao velho mosteiro, mas não pararam lá, atravessaram a ponte de Leão, mas como os guardas vigiavam a zona do exílio, cortaram então até os montes de Enthel. De lá viram os descamisados trabalhando no Exílio, a túnica cor vinho do pagão estava suada, e água este não o portava, mas pagão deu graças por não estar lá embaixo, nos vales.
Eles pararam então perto de Rocas onde havia um manancial que parecia virgem e intocado. O lugar devia ficar a um terço de léguas da cidade de Rocas, onde habitavam quarenta mil homens, mesmo assim o leito era puro. Os dois homens se abraçaram e beberam da água, Canthalion, então se levantou e com um cajado se aproximou da face cinza da montanha, arrastou uma pedra tumular até então disfarçada pela selva, e revelou uma câmara. De dentro um cheiro de oliva vinha seduzindo a todos os dois, Pagão chorava com as mãos a cobrir a sua face esquelética.
Canthalion sumiu dentro da câmara e voltou de lá carregando um corpo, envolto num tecido alvo e branco, parecia imaculado... Era uma mulher jovem, trinta anos, face branca como a cera, e o cabelo negro desnudo em todo o seu comprimento, ela parecia serena. Canthalion que a carregava firmemente nos braços, em contraponto a Pagão, sorria, mesmo que uma lágrima insistisse em lhe cair, ele percorrera tanto, para chegar ali.
Por Tanto tempo Canthalion esperara que não lembrava mais daquela sensação de aconchego que percorrera sua pele naquele instante. A moça em seus braços era ninguém senão a Rainha de Tsé. O Pagão alheio a tudo lavou os pés e as mãos e beijou aquele rosto frio:
- Não podemos contar a tua irmã!
- Eu sei.- Vociferou o de longos cabelos...- Ela não entenderia.
- Na verdade ela sabe que vamos morrer, ela nem acredita na volta dos Mendjhad!
- Por isso vamos fugir!
- Não pode esperar o solstício. - Clamou o pagão.
- Não será hora! Há uma dúzia de anos eu era príncipe. E agora?
- És um pagão, mas um pagão de fé!
domingo, 26 de julho de 2009
O Andarilho de Jerusalém...
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