“Era tempo das colheitas e uma criança brincava as margens do antigo rio Jordão. As tropas de recolhimento passariam a qualquer momento e os camponeses juntavam suas possessões, ninguém ali gostaria de esperar a chegada dos cavaleiros do Rei para se retirar do campo. Touthot era o nome do guardião daquele povo e ele gritava para os quatro cantos dizendo que os espoliadores já estavam no horizonte. A mãe do menino puxou-o pelo braço, mas suas mãos suadas escorregaram por aquele corpinho miúdo.
- Dante! Já é tempo!- Gritou ela, apesar de estar a um braço do menino.
Os escotilhos passaram de camelo pelo rio e atravessaram para a outra margem...
- Kaçış, Kaçış!!!
Mas em poucos segundos os cavaleiros do rei surgiram, alcançaram os saqueadores e extirparam os magros camelos e seus escotilhos, na frente de um pobre menino branco do sul. A mãe não viu a cena excruciante, correra com os gritos de aviso e estava a cem passos do rio e não olhava para trás. Perder um filho já era comum para os Sírios. Nos dez anos antecessores eles perderam cinqüenta e cinco mil cabeças.
- Çalıştır'ı barış çocuk için!- Gritou uma voz irreconhecível para o menino, mas temida pelos carrascos, naquele momento os cavaleiros que ainda tinham sangue nas mãos, fugiram com a mesma velocidade.
O menino não entendeu a língua do seu salvador, ele não havia freqüentado os Sabedores e não reconhecia a língua geral. “Drushka, Drushka...” Ele sussurrava silabicamente. Mas o filho do rei, o Príncipe da capital, não o escutou. Desceu de seu cavalo e banhou-se até os joelhos na pouca água do Jordão. “O menino ficou sozinho, mas nunca esqueceu aquele homem de cabelos longos e desgrenhados.”
Se aquele menino visse agora o homem que saia da encruzilhada de catacumbas e se esgueirava na rua do comércio de Etheratibag ele não o reconheceria. De cabelos rentes e resmungando como um velho babilônico, Canthalion rumou para o centro sem a maca que carregava antes. Ele subiu as escadarias para o segundo andar da cidade rumo ao sabedouro dos escribas e teria sido parado pelos guardas da escadaria se um homem atrás deles não assobiasse em sua direção.
O homem era baixo e tinha cabelos volumosos e costeletas consideráveis até a entrada do queixo. Ele não falou seu nome e tinha gestos comedidos, guiou o antigo Homem pelo braço e girou a maçaneta de uma grande construção no final do grande corredor que cortava a baixa cidade. Com grandes módulos reluzentes e janelas grandes em suas laterais, a obra faraônica era vermelho sangue e avistava toda a entrada da ponte para Etheratibag, mas as catacumbas eram obtusas demais para serem denunciadas. Quatrocentos cavaleiros do Rei residiam naquela morada e rezavam, ou fingiam, pela paz e consciência.
Da janela da face norte da morada se via toda a grande movimentação da cidade, na rua do comércio, na qual Canthalion havia se esgueirado, no entanto, não dava para se distinguir ninguém. Suas marquises eram compridas e apesar dos diversos decretos e marteladas que elas sofriam continuavam a esconder os pagãos, Sírios e exilados. Havia uma verdadeira ordem de proteção às minorias em Ether.
Entretanto Ellijah, o regente da cidade nada fazia para evitar a disseminação da liberdade em sua cidadela. No início poucos achavam que era sinal de sua benevolência, agora ainda menos gente acredita nessa caridade. Na verdade, é justo dizer, Ellijah era um verdadeiro corrupto e explorava e dizimava constantemente os refugiados, suas ânsias sexuais eram satisfeitas com as filhas dos constantes prisioneiros que fazia o que diminuía ainda mais as esperanças dos Sírios em criar raízes na cidade. Como nem o conselho de Fazeerd e nem a população de gente livre sabia desses abusos ele era considerado o mais liberal e benevolente dos regentes.
O conselho envia diariamente decretos e cavaleiros seus para influir na política de Ellijah, mas apenas uma pessoa tinha esse poder, e ela se chama Gia.
terça-feira, 28 de julho de 2009
De um passado já distante!
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